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Como eu cheguei aqui

A primeira coisa que aprendi sozinho num computador foi formatar. Eu era criança, a máquina era do meu pai, travava toda semana, e eu não tinha paciência para esperar alguém vir consertar.

Entre aquele computador e o trabalho de hoje tem uma escola agrícola, uma fazenda em Rondônia e um supermercado em Curitiba. Aqui embaixo eu conto como uma coisa levou à outra.

Cargo
Engenheiro de software
Onde
Londrina, PR, remoto
Formação
Técnico em agropecuária. Sistemas de Informação na FIAP, em andamento
Idiomas
Português nativo. Inglês intermediário avançado (B2)
Primeira linguagem
C#, para mover um cubo na Unity
John Silverio, retrato em preto e branco, de três quartos
John SilverioRetrato / 2026

História

Na ordem em que aconteceu

Da infância no interior ao trabalho de hoje. Quando um capítulo virou projeto, o link leva até ele.

  1. Infância

    O computador do meu pai

    Antes de ter computador em casa, eu já abria tudo que era eletrônico para ver o que tinha dentro, e boa parte nunca mais funcionou.

    O primeiro computador veio do trabalho do meu pai. Era um gabinete cinza enorme com Windows XP, monitor de tubo, mouse de bolinha e uma ventoinha que só parava de gritar depois de um tapa na lateral. Ficava no escritório dele, onde criança não entrava. Pedi tantas vezes que ele cedeu. Na cabeça dele, computador ia ser importante para arrumar emprego um dia, e ele estava certo.

    Primeiro vieram o Pinball e o Campo Minado, até eu enjoar. Depois veio a internet discada: abrir a conexão, digitar a senha da provedora na mão, esperar o barulho acabar. Foi assim que eu cheguei aos fóruns e descobri que do outro lado tinha gente escrevendo tutorial de graça para quem não sabia nada. Gente como eu.

    O computador foi envelhecendo e travando, e eu aprendi a formatar com esses tutoriais. Formatei o meu tantas vezes que perdi a conta, e um dia um vizinho pediu para eu dar uma olhada no dele. Depois veio outro. Instalava programa e gravava jogo de PS2 por uns trocados, o primeiro dinheiro que um computador me deu.

    Arrumar computador dava dinheiro, mas o que me prendia na frente da tela eram os jogos. Joguei Tibia até a conexão cair e fui para a lan house com os amigos, e em algum momento só jogar deixou de bastar. Eu queria fazer um.

  2. Até os 12 anos

    Jogos feitos no PowerPoint

    Comecei com a ferramenta que eu tinha: o PowerPoint. Cada slide era uma tela, cada botão levava para outro slide, e isso bastava para ter menu, fase e final. Parece piada, mas eu não era o único. Tinha comunidades inteiras de gente fazendo jogo em slide, trocando arquivo e truque.

    O problema do PowerPoint é que nada se mexe. O personagem pula de um slide para o outro, e eu queria que o meu andasse. Procurando um jeito, descobri que existiam programas feitos só para criar jogo. Com os vídeos de um canal chamado Drak Tutoriais aprendi o RPG Maker XP e fiz uns joguinhos com história e poucas fases, que mandei para os amigos jogarem.

    Depois veio o Construct. Nele o jogo se monta com eventos, quando isso acontece faça aquilo, e foi ali que eu encontrei o raciocínio lógico pela primeira vez, muito antes de saber que ele tinha esse nome. Quase tudo que fiz nessa época se perdeu. Eu não sabia o que era backup.

    Ainda faltavam cenário e personagem, então fui aprender Blender. Aos 12 anos achei que já sabia o bastante para ensinar e abri um canal de tutorial no YouTube. Não sabia. A voz de criança também não ajudou, e os comentários não perdoaram. Até hoje é um dos maiores micos da minha vida, e o vídeo continua lá.

  3. Adolescência

    Um cubo a dez quadros por segundo

    Aí veio o Minecraft, e a cidade inteira quis jogar. Espremi aquele PC até o jogo abrir, e no meio do caminho apareceu na tela uma palavra que eu não conhecia: Java. Fui pesquisar e descobri que toda engine é construída em cima de uma linguagem de programação.

    Então fiz a coisa menos sensata que aquele computador permitia e instalei a Unity. Instalou. Coloquei um cubo numa planície e escrevi uns scripts para ele andar para a esquerda e para a direita com as setas do teclado. Rodava a uns dez quadros por segundo, com todas as outras janelas fechadas. Foi minha primeira linha de código de verdade, em C#.

    Uns meses depois o PC pifou de vez. A família era simples, e meus pais trabalhavam tanto que nunca faltou o essencial em casa, mas um computador novo não cabia no orçamento. Nos anos seguintes eu usei o do vizinho, o do primo, o da lan house.

    Nesses anos eu andava de skate ouvindo Charlie Brown Jr., a trilha de todo moleque de skate daquela época, e em casa o som era Limp Bizkit, Korn e Sepultura. Só que no interior a economia gira em torno do agro, e quando chegou a hora do ensino médio, foi para lá que a vida apontou.

  4. 2018 a 2020Clevelândia, PR

    O Ubuntu num pen drive emprestado

    Fiz o ensino médio junto com o técnico em agropecuária, num colégio agrícola em regime de internato. Fazia sentido: o emprego da região estava no campo, e ninguém ali tinha motivo para me empurrar para o teclado. Continuei mexendo com computador assim mesmo, na teimosia.

    Levei para o alojamento um notebook usado de 200 reais, que travava até para abrir o Word. Um dia, me vendo brigar com ele, um amigo do alojamento perguntou por que eu não usava Linux. Peguei um pen drive emprestado, formatei ali mesmo e instalei o Ubuntu. O notebook, que parecia perdido, voltou a funcionar.

    Aprendi a linha de comando do jeito que todo mundo aprendia na época, pesquisando “como instalar tal programa no Ubuntu” e copiando o comando do primeiro blog que aparecia. Nunca mais larguei o Linux. Já foi meu sistema principal, já dividiu o disco com o Windows em dual boot, e hoje roda no WSL, onde eu programo.

    CEEP Assis BrasilTécnico em agropecuária, integrado ao ensino médio

  5. 2021 a 2023Vilhena, RO

    1.470 hectares em Rondônia

    Com o diploma na mão, fui trabalhar numa fazenda em Vilhena, em Rondônia. Fiquei responsável pela aplicação de defensivos em 1.470 hectares, com uma equipe de duas pessoas e um tablet GPS para manter cada passada da máquina na linha certa.

    O notebook velho foi junto, na mochila. Mas quem mudou as coisas foi o primeiro salário de verdade: com ele comprei um computador decente e voltei para o C# e a Unity, agora sem contar quadro por segundo. Dessa vez fui além dos jogos. Comecei a fazer sites, a programar pelo gosto de programar, e aquilo começou a parecer uma profissão possível.

    Eu ia bem na fazenda, mas não me sentia realizado. E ali não tinha faculdade de computação nem empresa de tecnologia onde eu pudesse aprender o ofício. No começo de 2023 larguei tudo e fui para Curitiba.

    Fazenda UniãoTécnico agrícola

  6. 2023Curitiba, PR

    De pé às 4h30

    Cheguei sem emprego na área e comecei como auxiliar num Atacadão. No mês em que caiu o primeiro salário, me matriculei em Ciência da Computação na Estácio.

    O mercado ficava do outro lado da cidade, a duas horas de transporte na ida e duas na volta. Supermercado abre cedo, então eu estava de pé às 4h30, e a faculdade era presencial, à noite, então eu chegava em casa perto da meia-noite. Dormia pouco e achava normal.

    A faculdade abriu a primeira porta. Com ela no currículo consegui uma vaga de suporte de TI no Condor, uma rede grande de supermercados: hardware, software, configuração de PDV, monitoramento da automação das lojas. Foi a primeira vez que vi de perto um sistema em produção, e gente que dependia dele para trabalhar.

    Condor Super CenterSuporte de TI

  7. 2023 a 2024Curitiba, PR

    Entre os clientes e os devs

    Três meses depois de entrar no Condor, uma indicação me levou para a Zhavia, uma startup de software de gestão. Era a primeira vez que eu trabalhava dentro de uma empresa de tecnologia. Comecei no back office, o suporte que pega o que o atendimento não resolve, e para isso precisei saber de cor as regras de negócio de um sistema enorme.

    Os devs queriam me puxar para o time, e nos últimos meses lá eu fiquei só na análise de requisitos. Virei a ponte entre eles e os clientes: me reunia com o cliente para entender o que ele precisava, discutia com os devs e escrevia a documentação no Confluence, anexada à issue do Jira. Algumas dessas conversas viraram funcionalidade do sistema.

    No resto do tempo eu estudava HTML, CSS e JavaScript, nos fins de semana que sobravam entre cálculo e matemática discreta. Era pouco, mas foi o que eu levei para a porta seguinte.

    Zhavia TecnologiaBack office, depois análise de requisitos

  8. 2024 a 2025São Paulo, remoto

    Quando a IA chegou no marketing

    Em fevereiro de 2024 uma agência web de São Paulo me contratou como desenvolvedor, para trabalhar de casa. Eu entendia muito de computador e pouco de programação, e aprendi no serviço. Cada tarefa trazia a próxima coisa para estudar: quando precisei fazer deploy, aprendi deploy. O que me segurou foi saber pesquisar, coisa que eu treinava desde os fóruns no computador do meu pai. Em junho troquei a Estácio pela FIAP, onde curso Sistemas de Informação.

    Quase tudo era frontend: sites e interfaces para os clientes da agência, em JavaScript. Até que a IA começou a ganhar espaço no marketing digital, e isso bateu direto no meu trabalho. Em vez de esperar para ver no que dava, fui aprender automação com ela. Foi aí que comecei com Python e n8n, primeiro em projetos de teste, depois na operação da própria agência.

    Montei no n8n chatbots de triagem, agendamento e atendimento, que conversavam com 6 a 15 pessoas por dia e respondiam a partir do conhecimento da empresa, com RAG em Python e LangChain. Mantive um serviço de chatbot em Node.js, integrei sites com ERPs e automatizei o onboarding de cliente, do contrato assinado ao e-mail de boas-vindas.

    Eu já escrevia código na mão quando tudo isso começou, e a IA da época acertava bem menos do que acerta hoje. Por um bom tempo ela ficou nesse lugar para mim: automação, bot e tarefa repetitiva.

    ValkeerDesenvolvedor fullstack

    visto emAutomação de onboarding

  9. 2025 até hojeBrasil, remoto

    De volta ao agro

    Em 2025 uma consultoria ambiental e geoespacial que atende o agronegócio me contratou para trabalhar com C# e .NET, a linguagem daquele cubo. A empresa cuida de regularização fundiária, licenciamento ambiental e análise de imagem de satélite, e do outro lado da maioria dos processos tem uma propriedade rural, como a fazenda onde eu trabalhei.

    O backend geoespacial dela, em C#, foi construído por quatro desenvolvedores, dois deles seniores, e eu era um dos quatro: fiquei com endpoints, a documentação da API, observabilidade e a eliminação de consultas N+1. Sozinho, criei a ferramenta de análise por satélite que os analistas e o jurídico usam. Também projetei e desenvolvi o site e o blog da empresa.

    No dia a dia o trabalho é Python e Django, com PostgreSQL e PostGIS. Construo e mantenho módulos do backend de uma plataforma do tamanho de um ERP, e é onde eu fui mais fundo até agora. Participo das decisões de arquitetura ao lado dos engenheiros seniores e, quando a entrega pede tela, entro no frontend em Angular.

    No começo de 2026 a empresa pediu que a equipe passasse a usar IA no dia a dia e que a gente desenhasse um jeito seguro de fazer isso, porque lidamos com dado sensível. Foi aí, e não antes, que comecei a escrever código com agentes, usando o Opus. Como esse fluxo funciona é assunto para o blog.

    Vale Verde AmbientalEngenheiro de software

    visto emBackend geoespacialAnálise por satéliteSite da Vale Verde

  10. Por conta própriaEm público

    Projetos meus

    Fora do expediente eu mantenho projetos abertos no GitHub. O Hort é um sandbox em Rust para agentes de código, com site de documentação próprio. O Parlano é um bot de Discord que grava a call e devolve a ata da reunião. O Mapsift é um GIS colaborativo, ainda em construção.

    E fazer jogo voltou para a minha vida sem eu forçar. Estou construindo um jogo meu, em C#, e aprendendo a Unity a fundo, agora como a minha engine. O cubo hoje anda bem mais rápido do que dez quadros por segundo.

  11. HojeLondrina, PR

    Em casa, em Londrina

    Hoje eu moro num apartamento em Londrina com a minha esposa. Estamos juntos há quatro anos, e a gente vive muito bem.

    Cozinho bastante, e quase nunca a mesma coisa duas vezes: gosto de testar o que eu ainda não fiz. A música também continua perto. O adolescente do nu metal hoje ouve de tudo, e sempre tem algum instrumento ao alcance da mão.

E tem a Lady, minha gata, que acompanha tudo isso de perto.

Próximo passo

O resto eu conto numa conversa

Os projetos têm uma página só deles, e o currículo tem as datas. O que não coube em nenhum dos dois, é só me escrever.

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